Uma viagem em família (mãe, pai e filha) de triciclos pelo nordeste brasileiro.
Entrevistada por Policarpo Jr
Textos e fotos da própria entrevistada

Nem todo mundo viaja só de moto. Tem aqueles, os chamados triciclistas, que rodam de triciclos (claro)! Existem muitas pessoas que curtem rodar com 3 rodas, mais equilíbrio, posição de pilotagem semelhante a de um carro...
Muitos moto clubes tem triciclos por entre as motos em seus passeios. Tem piloto que gosta de ambos; moto e triciclo. Agora o Casal Helena (46) - foto ao lado - e Maurício (49) tem algo um tanto difícil de se achar por ai, viajam juntos e cada qual pilotando seu triciclo. Residem em Brasília/DF e são integrantes do Pelicanos MC. E partiram, saindo de Brasília/DF, cada qual pilotando seu triciclo e com a filha, Ana Flávia (13) na garupa, para uma bela viagem pelos estados do nordeste brasileiro. Foram muitas emoções, amor em família e histórias para contar e guardar para sempre na memória.
Rock Riders realizou essa entrevista por telefone e e-mail, com a triciclista Helena, que com muito humor, relata sua experiência de rodar de triciclo, com o marido e filha, pelo nordeste...

Mapa do percurso realizado pelo nordeste brasileiro, com a pitada de humor da Helena, que marcou os locais onde ficaram em mecânicas consertando um dos triciclos.
Qual a história de vocês no motociclismo?
Somos motociclistas calmos e tranqüilos. Gostamos de: ver paisagens por onde passamos, motos custom, andar em família com o nosso motoclube, fazer filantropia e nos relacionarmos bem com todos os amigos motociclistas.
Nós dois somos figurinhas conhecidas no meio motociclístico de Brasília. Porque além de sermos marido e mulher, rodarmos sempre juntos – claro que em máquinas separadas – fazemos parte de um motoclube bem consolidado e respeitado na Capital Federal – o Pelicano Mc (www.pelicanomc.com.br).
Eu piloto há apenas 5 anos. Nunca havia andado de moto (nem de garupa) até o dia em que conheci Maurício. Naquele dia me apaixonei pelos dois! Começamos a andar em uma moto (eu na garupa). Meses depois, resolvi comprar minha moto e aprender a pilotar (nesta ordem mesmo. Só aprendi a pilotar na minha moto). Daí comecei a alçar meus vôos sozinha. Depois de um ano, compramos o triciclo amarelo que estava no início de confecção e Maurício acabou sua construção em casa. No ano seguinte, foi a minha vez de ter o meu triciclo. Foi quando compramos o branco. Pequeno mas possante à beça! Hoje, cada um tem sua moto e seu triciclo. Isto é bom, pois quando dividíamos o mesmo triciclo Maurício teve que mexer na pedaleira para eu poder alcançá-la. Para mim ficou ótimo, mas, para ele, ficou curto, tadinho! Ficava com as pernas espremidas! Com isto, meu triciclo, hoje, tem o banco regulável para que uma pessoa maior do que eu possa pilotá-lo. O dele, em contra partida, eu não piloto mais. O acelerador ficou muito longe e não o alcanço.

O fato de ambos pilotarmos não nos afasta? De maneira alguma. Pelo contrário. Depois de passarmos a manhã, a tarde e, às vezes, a noite pilotando estamos bem mais unidos, pois, quando paramos, apesar do cansaço, estamos com saudade um do outro. Só é ruim, pois não temos como conversar, mostrar algo na estrada, comentar sobre alguma coisa....enfim....a noite eu viro uma tagarela pois fiquei muda o dia todo...isto é um horror! Mas não é que entre um abastecimento e outro temos tempo de ter uma briguinha tipo: “porque demorou em ultrapassar?” ou “vc não viu o caminhão?” ou “Agora está parando por quê?”(rs).
Somos casados há 5 anos. Eu tenho 46 anos e sou funcionária pública federal. Maurício tem 49 anos e é comerciante. Ana Flávia tem 13 anos e foi sua primeira viagem de triciclo.

Maurício (49), marido da Helena.
Viajaram de triciclo (cada um pilotando o seu) pelo nordeste, quanto tempo levaram, sairam de onde? Quais cidades passaram?
Saímos de Brasília no dia 26/12/07 e retornamos dia 22/01/08.Foram 28 dias rodando pelo Ne e 6.500 Kms rodados! Nosso trajeto foi o seguinte (falarei apenas as capitais por onde passamos): Brasília/Salvador/Aracaju/Maceió/Natal/João Pessoa/Recife/Maceió/Salvador/Brasília.
Mas, o lugar pelo qual nos apaixonamos perdidamente fica escondido, bem pertinho de Maragogi/AL: Japaratinga! Um verdadeiro paraíso. Lá conseguimos até dar cavalos-de-pau na areia! Coisa que amei!
Deixe-me esclarecer uma coisa: Nossos triciclos têm nomes. O meu – branco/azul – se chama Hórus. O do Maurício – amarelo – se chama Anúbis. E, em homenagem a eles, tenho tatuado no braço estes dois deuses egípcios.
Na estrada, eu sempre vou a frente porque Maurício fica atrás me protegendo.
Conte-nos o que acharam do nordeste brasileiro? Curiosidades? Hospedagem como fizeram?
Fiquei impressionada com a hospitalidade nordestina. Fosse em uma capital ou numa cidade do interior eramos sempre recebidos com muito carinho! E, é claro, com muita surpresa também.
Claro que quando parávamos em algum lugar várias pessoas vinham ao nosso encontro para indagar sobre os triciclos (motor, quem fez, como é pilotar, etc) , de onde vínhamos, para onde íamos. Tiravam muitas fotos. As crianças pediam para subir nos triciclos.... E eu, por diversas vezes, fui ‘confundida’ com a Rita Lee, tendo que posar para fotos também.

Conhecidas na viagem pousando para fotos.
Nas estradas, carros emparelhavam com a gente para tirar fotos. Caminhões buzinavam....Enfim....chamávamos atenção, e muita. Mas, isto faz parte da vida de triciclista. Uma coisa que nós, triciclistas, não podemos ter é ciúmes do triciclo, pois temos que deixar as pessoas subirem nele para tirarem fotos ou para apenas matar a curiosidade. Isto inclui, em sua maioria, adultos!
Curiosidades:
1. Num posto, no interior de Sergipe: um garoto, em seus 11/12 anos, chegou perto de mim...olhou o triciclo, deu a volta nele todo...olhou, olhou...e virou para mim e perguntou: “ Moça, este negócio voa?”...Achei tão bonitinho! Diante do inesperado da pergunta, apenas respondi: “Sim...voa baixo!”. Já outro garoto, em Ibotirama/BA, olhou tanto e não perguntou nada....Mas aquele olharzinho perplexo dele me marcou muito...
Em sua maioria são homens que se aproximam da gente e a maior curiosidade é em relação ao motor (não sei o porquê!) Para que vocês não fique curiosos: o motor do meu triciclo (branco) é de Santana, 1.8 AP e o do Maurício (amarelo) é motor de Saveiro, 1.6 AP.
2. Numa cidadezinha chamada Santo Estevão/BA tivemos que parar para soldar o farol de Anúbis (amarelo) que estava caindo. Nossa!....juntou gente demais em volta dos triciclos que cheguei a ficar com medo! Eu e Ana ficamos mudas e com cara de bravas....hehehehehe... Virei para ela e disse: “Filha, não fale comigo. Não sorria. Faça cara de mal!”. Eu, fechei a cara, cruzei os braços (para as tatuagens ficarem aparecendo. Será que isto assusta?) e fiz cara de poucos amigos..... (o que o medo não faz com a gente....rs). E ali ficamos por mais 1 hora! Engraçado que o medo era mútuo....Ninguém falou com a gente tão pouco! Nunca vou saber se nossas caras de bravas os assustaram....
Farol soldado, nos besuntamos de protetor solar (consumimos em torno de 5 frascos de protetor solar durante a viagem), pois viajamos com camisetas sem manga devido ao calor infernal e pegamos estrada novamente.
3. A noite passo por um problema chato: como não conseguimos consertar meu velocímetro para a viagem, comprei um velocímetro de bicicleta. Muito bom, por sinal, funciona direitinho. Mas, a noite, não o enxergo, pois ele não tem iluminação.....rs.
4. Nada contra os pedágios. Aliás, eu sou muito a favor deles. Mas, ninguém merece pagar 10 vezes o mesmo pedágio! E para 2 triciclos! Na Estrada do Côco/BA tem um único pedágio, e como, por diversas vezes, tivemos que ir para Salvador. Ficamos hospedados em Arembepe – é claro, depois do pedágio.

A viagem foi repleta de curiosidades.....
Nós três não gostamos de acampar, portanto só ficávamos em pousadas ou hotéis. Agora, chegar numa cidade desconhecida, a noite, debaixo de chuva, sem saber aonde ir, cansados, depois de mais de 12 horas pilotando....e ainda ter que procurar hotel!....Ninguém merece! E isto fez parte de toda a viagem. Por quê? Porque não reservamos hotéis pois não tínhamos noção de quanto tempo conseguiríamos pilotar por dia, se os triciclos agüentariam e se Ana agüentaria também. Não podíamos, portanto, determinar quando chegaríamos nas cidades. Isto talvez tenha sido um erro, pois o cansaço nos fazia parar no primeiro hotel descente que aparecia na nossa frente!
No que essa viagem mais marcou para vocês? A filha curtiu muito?
Foi uma aventura sem precedentes, sem dúvida! Mas, infelizmente, cheia de percalços, chateações,estresses, desgastes e frustações. Pensamos em desistir? Várias vezes!
Fizemos tantos planos, sonhamos.....estávamos super felizes em realizar o nossa primeira grande viagem. Maurício e Ana, loucos por praia, eram só alegria!
Tantos cuidados tomados, tantas precauções, tantas anotações feitas para nada ser esquecido...... para ver tudo se afundar em oficinas....
Não sei dizer qual o maior percurso que percorremos sem precisar de uma oficina.... Conhecemos, por necessidade, mais de 20 oficinas pelo caminho. Em capitais, no interior, em postos de gasolina, enfim.....conhecemos, em cada canto do nordeste, uma oficina.
Mas, tiramos, com certeza, bons frutos: as amizades que fizemos ao longo destes dias!
Mas, apesar de tudo, o fato de termos concluído a viagem foi uma vitória. Uma grande vitória!
Ana Flávia (foto ao lado) adorou. Melhor do que dizer se ela curtiu, é transcrever o agradecimento que fiz a ela: Ana Flávia teve a coragem de nos acompanhar nesta aventura um tanto quanto maluca, mas que, com certeza, lhe renderão muitas histórias. Agradecer é pouco, muito pouco. Talvez deva lhe prestar um tipo de reverência. Passar 21 dias em cima de um triciclo, espremida no banco da garupa, sofrendo todos os tipos de intempéries, se rendendo ao sono naquelas intermináveis horas de estrada ali, sentadinha e espremidinha, com o capacete enfiado na cabeça, sob um calor infernal e um vento impiedoso..... São coisas para pessoas destemidas!
Trocar as belas praias do nordeste por horas em oficinas, que, às vezes, tomam o dia inteiro....Agüentar o estresse de ficar horas na beira da estrada, sem viv’alma por perto, por causa de pneu furado, sem demonstrar medo, uma vez que ficamos apenas nós duas enquanto Maurício ia para um posto procurar borracheiro.... Ou ficar horas em postos de gasolina esperando mais um conserto no triciclo e vendo sua mãe dormindo sentada....
Em plenas férias ter que acordar, na maioria dos dias, às 6h da manhã para enfrentar mais estradas... Acostumar-se a fazer apenas uma refeição por dia, quando fazia...
Ficar 21 dias longe de um computador! Passar a metade do dia do seu aniversário de 13 anos (04/01) esperando triciclo voltar de oficina.
E por fim, ter a coragem de dizer para nós que não agüentava mais andar de triciclo. Sem medo de decepcionar a gente! E não tinha por que....já era uma heroína para nós!
Mas foi bravamente até Natal. E na volta, a despachamos de Recife para Brasília. O que mais posso dizer a esta criaturinha tão maravilhosa, tão especial, o meu maior bem, meu tesourinho, minha filha que eu amo demais.... se não que me orgulho de sua bravura, de sua coragem e de ser sua mãe!
Tiverem algum problema ou imprevistos? Quais?
Só tivemos imprevistos! Bem, quando se viaja de triciclo tem que sair de casa sabendo que nem tudo pode sair como o planejado. Mas daí ter que: recuperar 2 pneus furados no mesmo dia; se enfurnar numa cidade do interior da Bahia para retificar motor; ficar num posto de gasolina por horas por causa de uma roda simplesmente rasgada feito papel; ter medo de pilotar por não confiar mais nos amortecedores; ficar às cegas, à noite, na estrada, durante um temporal porque deu pane elétrica e todos os faróis se apagaram; perder um freio traseiro (o triciclo não tem freio dianteiro)....preciso contar mais?????

Triciclo sendo consertado, isso foi uma constante na viagem.
Pouca autonomia: os triciclos possuem tanques de combustível pequenos. Isto fazia com que fôssemos obrigados a parar muito para abastecimento. Abastecíamos a cada 100/150 kms.
Sono: eu senti muito sono durante vários períodos do dia, principalmente pela manhã. Superação: parava imediatamente. Se em posto, tomava café e jogava água na cara. Se em acostamento, tirava o capacete, sentava no chão e fumava um cigarro.
Já noite fechada! De repente.....3 vacas surgem à minha frente! O que fazer? Instantaneamente meti o pé no freio e enfiei os dedos nas duas buzinas......e...milagrosamente...consegui espantar a 3ª vaca que ainda não havia atravessado. Conseguimos, não sei como, passar entre a 2ª e a 3ª vaca. Foi eu freando e buzinando....Maurício freando e buzinado...e mais 2 carros que vinham atrás dele também.....Ainda bem que não vinha carro na contra-mão! Olha....foi o maior susto que tomei na minha vida de triciclista! Hoje sei que, naquele instante, Maurício quase bateu na traseira do meu triciclo. Quilômetros depois, um caminhão que estava na nossa frente passou num trecho repleto de barro seco fazendo com que este barro virasse uma parede de poeira, muito densa. Ficamos às cega por uns 100 metros! Terrível!
Último dia de viagem.....Brasília estava tão longe ainda! Faltavam 643 km! E, por causa do cansaço, parecia que só ficava mais longe.... De Luiz Eduardo Magalhães/BA até Brasília chuva forte durante todo o trajeto. O cansaço já era insuportável....a chuva machucava as mãos.....o frio congelante (já quase não sentia os dedos).....a estrada parecendo interminável.....aqueles retões que agora incomodavam muito mais! Só a chuva....e o frio nos castigando!
Talvez devêssemos ter parado e esperado a chuva passar um pouco....mas, nesta hora, só pensávamos em chegar em casa.....em encontrar nossos bichos, deitar na nossa caminha.....e tirar férias dos triciclos!
No geral, o que acharam das condições das estradas do Nordeste? Se possível cite os nomes das principais rodovias que passaram...
BR 020 – Brasília até Luis Eduardo Magalhães – em boas condições, apesar de muitos calombos (aqueles feitos pelo excesso de peso dos caminhões) que, para triciclos, é um horror. Temos que desviar três rodas!

Essa viagem realizada, você considera que é uma forma de unir a família e estreitar a convivência? Para vocês se fossem de carro ou avião, seria a mesma coisa?
Sim. Nós tínhamos que estabelecer metas diárias, dependendo do cansaço de cada um. Nós nos entendíamos por sinais. Depois de cada trecho percorrido fazíamos avaliação deste trecho da viagem. Portanto, tínhamos que ter muito respeito e confiança um no outro. Esta foi uma super experiência para nós e para nosso núcleo de família. Nada como uma aventura feita em família, com uma história única vivida por nós três!
Nunca seria a mesma coisa se fôssemos de carro ou avião. Avião é muito rápido e de carro, com certeza, iríamos em um só o que não nos propiciariam tantas aventuras. Fora que de carro eu e Ana dormiríamos o tempo todo.
Fora essa viagem pelo nordeste brasileiro, para onde mais vocês já viajaram de triciclos?
Eu e Maurício, em dezembro de 2006, fizemos nossa primeira viagem. Fizemos o percurso: Brasília/Campinas - SP/Ilha Bela - SP/Parati - RJ/Petrópolis - RJ/Brasília. Total de quilômetros rodados: 2.950 km.
Foram 10 dias debaixo de temporais.
Em 2007 fomos ao Tricustom, em Serra Negra/SP. Saímos de Brasília numa exta-feira e voltamos no domingo. Foi uma correria danada, pois Brasília está há 1.300 km de Serra Negra. Mas valeu, foi um encontro maravilhoso!
Que conselho dão aqueles que querem viajar de triciclo pelo nordeste brasileiro?
1. Conversar com amigos que já viajaram de triciclo;
2. Planejar bem a viagem, como, por exemplo, quantos quilômetros serão percorridos por dia;
3. Escolher as melhores estradas, tanto no que diz respeito à conservação, como as distâncias entre os postos para abastecimento;
4. Revisão minuciosa de cada item dos veículos antes de sair. Caso contrário, ligue para a gente que conhecemos um bocado de oficinas pelo nordeste (rs);
6. Pare imediatamente se sentir sono. A sensação é terrível!;
7. Nunca pense em levar seu guarda-roupa numa viagem assim. Só serviu para pesar e não usamos a metade das roupas que levamos;
8. Se tiver conhecidos no percurso que fará, avise-os. Mesmo que não precise de nada, pois é bom demais ver alguém conhecido, alguém que lhe quer bem, após um dia de estrada!;
9. Relaxe.....A viagem vai lhe oferecer, com certeza, grandes surpresas;
10. Aproveite cada minuto na estrada....
Vocês já tem algum outro plano de viagem juntos?
Com certeza! Planejamos para janeiro uma viagem para Buenos Aires (Argentina).
Comunique-se com a Helena pelo e-mail:
helena.rangel@onix.com.br
Helena, embora não tenhamos nos conhecido pessoalmente, a achei divertida e muito bem humorada, tanto por telefone, quanto em nossos e-mails que trocamos. E ao ler sua história, fica claro que é uma pessoa de bem com a vida! Muito legal essa viagem sua, do seu marido e filha de triciclos(!) pelo nordeste brasileiro. Abraços e muitas viagens como essa (com menos problemas mecânicos da próxima vez!) - Policarpo Jr - Rock Riders
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